sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Uma Lança em África?

Alegoria da África, de BartholdyOntem, ouvindo Miguel Sousa Tavares, no noticiário das oito da TVI, assaltaram-me sentimentos contraditórios: simpatizo com a revolta que exprimiu, por ver as populações de muitos dos Países do Continente Negro entregues aos desmandos de uma classe política insaciavelmente corrupta e, o que é pior, sem escrúpulos de infligir gratuitamente sofrimentos aos que lhes estão submetidos. Isto, apesar de lhe ter escapado uma florzinha falhada, quando, querendo dizer que não o viessem tentar calar com o estribilho da pesada herança do Colonialismo, lhe saiu, em vez, a conversa do fardo do Homem Branco, que foi peditório para que já dei. Esta expressão, como se sabe, foi celebrizada por Kipling e significava o que na presente discussão poderia ser tomado em sentido oposto - a responsabilidade civilizadora transformante que considerava da competência dos Euro-Americanos.
No que não há meio de concordar é com a solução que propôs: a ONU (e a UE!) dizerem aos Estados mais afectados por este flagelo que não podem continuar a governar-se, no seu próprio interesse. Confiar a cura a organizações destas, seria enviá-los para destinos que, em vez de passarem por institutos de regeneração, funcionariam como escolas de crime, isso sim, além de, no caso das Nações Unidas, equivaler a confiar o tratamento a um dos principais responsáveis pelo mal, como prova a vergonhosa avalanche de debates e resoluções da década de 1960´s.
Não se deveria começar por uma reavaliação de presenças europeias históricas como a nossa, muito menos friamente voraz do que outras?

8 comentários:

Luísa disse...

Sem dúvida, Paulo! Há quem diga que esta fase do desenvolvimento africano é inevitável, um degrau que não pode deixar de se pisar na longuíssima escada da formação cívica e «democrática». Mas é revoltante que esse degrau sacrifique gerações inteiras de africanos, deixados na fome e na miséria. Devia haver maneira de poder intervir. Devia haver uma Justiça internacional efectiva, que arrancasse do lugar e castigasse esses que exercem o poder tiranicamente e em benefício próprio. A impunidade é, de facto, a grande pecha do nosso mundo político.

Euro-Ultramarino disse...

Caríssimo Amigo,
Salazar previra - com matemático acerto, para variar... - que com a expulsão do homem branco de África as populações cairiam na noite tribal. Os demagogos do anticolonialismo dos '60, ONU incluída, como muito correctamente recorda o Amigo, são os grandes responsáveis da grande tragédia que se abateu sobre o continente negro, ou melhor, sobre as suas populações, pois, para os sobas cleptocratas e assassinos "magicamente" alcandorados ao poder nominal dos novos "Estados", isso representou rios de leite e mel...
Um forte abraço (desde os 32 graus de Buenos Aires)

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Luísa,
mas para fase já dura há tempo demais, parece-me. E esse argumento das fases é rejeitado pelos mesmos, que passam a vida a atirar à cara da Civilização Ocidental a Escravatura, a qual, hedionda como surja, foi de facto uma... fase de todas as culturas duradouras, já o notava Oliveira Martins.
Beijinho

Paulo Cunha Porto disse...

Bela temperatura, Meu Caro Euro-Ultramarino. Aí é que bate o ponto, não seria hora de deixar os ódios históricos de parte e reconhecer a cupidez e a indiferença - ou, no limite, o regozijo - pelo sofrimento alheio, presente nos "libertadores autóctones"?
Abraço

tsantos disse...

E, a respeito da escravatura, nunca é de mais lembrar (e é normalmente escamoteado) que as populações autóctones também não estão totalmente isentas de culpas...

Ab
T

Paulo Cunha Porto disse...

Meu Caro TSantos,
clro que não, note-se que foram elementos das ditas que vieram oferecer aos Europeus arribados a mão de obra gratuita de cativos transaccionáveis. Lembro sempre que o esclavagismo existia em África antes de lá chegarmos e subsistiu, embora localizadamente, depois de sairmos de lá, veja-se o caso tenebroso da Mauritânia. Só nos pode ser assacada a culpabilidade do aproveitamento, o que não é pouco, já se sabe.
Abraço

tsantos disse...

Claro, mas o hediondo PC (politicamente correcto) só aproveita o que lhe convém...

Ab
T

Paulo Cunha Porto disse...

É que há algumas (e algemas) muito duras de ouvir...
Abr.