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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Pomo da Discórdia


Um cavalheiro chamado Michael Renfro depositou em juízo uma acção cível contra os sucessores de Magritte, pedindo uma indemnização de quinze milhões de dólares pelo que considera ter sido uma apropriação ilegítima da sua imagem em O Filho do Homem, acima, com a aparência de uma maçã colada à cara, sustentando que a arte do grande Belga se resumiria ao foto-realismo e que poderia tê-lo captado nos anos 1960´s, em Bruxelas, quando lá estivera, a comprar um coco e um sobretudo.
Não conheço a petição incial elaborada pelo ilustre mandatário do Autor, mas seria caso para ter invocado o quadro ao lado, em que a negação ganharia um alcance mais lato do que aquele que os críticos reconhecem, o do truísmo desvanecido que lembra não ser a representação pictórica o próprio fruto retratado.
Todavia, não parece poder ser-lhe dado ganho de causa. Provou, com esta iniciativa, ser um verdadeiro maduro e o vegetal que lhe serve de rosto está tão verdinho como aquele que ficou imortalizado na tela, um caso biologicamente muito problemático de conservação.

Das duas uma, ou lembrando-se do isco lançado pela Cobra a Eva, tentou dar uma dentadinha no que lhe proporcionaria a imortalidade, pelo minuto de fama que os Media lhe concederam, ou como comensal (a)bancando, noutra chapa célebre do mesmo objecto, As Belas Realidades, experimentou conferir-se alguma participação no Belo. Num e noutro caso seria tentar tomar o Desejo pelo Real. E Magritte teria gostado disso.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Uns Grandes Pintores!

Bem me tinha parecido pouco coerente com as preocupações do actual executivo camarário este conjunto de intenções de limpeza e responsabilização pelos graffiti do Bairro Alto. Nesse mesmíssimo lugar vão agora debater e endeusar, segundo o recorte do «Destak» de hoje, a expressão das interioridades frequentemente obscenas e, em todo o caso, gritantes, ao ponto de a quererem fazer passar por Arte. Está explicada a primeira notícia: era uma tentativa de conferir aos autores dos rabiscos a aura da perseguição que faz O Verdadeiro Artista...
O Pintor de Graffiti, apanhado Aqui

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Retocar as Ruínas

Caveira e Batom, de Zack Zdrale
A todos os títulos inesperada, a verificação de que os cosméticos são indicadores seguros de crises económicas, embora no sentido inverso do lógico, a sua procura aumenta consideravelmente durante os períodos de maiores dificuldades. Pensando bem, é natural que as pessoas sintam a necessidade de se transformar precisamente quando tudo à sua volta tenda a tornar-se insuportável. E as Mulheres, vendo a vulnerabilidade de tanto homem na fossa, após uma derrota na bolsa, ou economias de uma vida arrastadas nalguma falência, podem crer chegada a hora de se fazer valer, nuns casos como compensação genuinamente altruísta, noutros por verem a concorrência de apelos diferentes empalidecer. Oscar Wilde dizia que nada há de tão essencial como o supérfluo. E, no fim de contas, é quando sentem ameaçado um estilo de vida que as gentes se tentam sossegar, atestando da boca para fora mas sem palavreado tornado inaudível, que a ameaça não lhes retirou a aptidão de consumir estes bens metamorfoseados em de primeira necessidade pelas susceptibilidades, quer próprias, quer sociais.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Cruzes, Credo!

A demissão da directora do museu de Bolzano responsável pela exibição da tela menos do que medíocre de uma rã crucificada tem toda a justificação e mais alguma. Não pelo critério da ofensa à Religião - que não foi sequer o invocado -, embora seja muito engraçado que toda a gente possa sentir-se ofendida com um crucifixo numa sala de aulas e esteja vedado aos Cristãos insurgirem-se contra a representação grotesca que parodia o Símbolo sob O Qual se norteiam. De notar que a mesma senhora foi criticada por patrocinar uma exposição em que se destacava uma suástica e que o quadro da polémica poderia concitar a ira dos defensores dos direitos dos animais. Mas como a Igreja Católica é que faz correr atrás, seja com o círio ou com o cacete, já Buñuel dizia, é para aí que embicam.
A meu ver, o despedimento é mais do que justo, pelos gastos injustificados de que a acusam. Com efeito, não examinei as contas da instituição, mas qualquer mísero tostão gasto com trabalho pictórico tão mauzinho seria mais do que perdulário. Dir-se-á que é a minha opinião E eu responderei que é para a ler que aqui vieram. Se relevância se quer atribuir a algum juízo, terá de ser endereçada a quem de direito, quer dizer, ao dos administradores. E esses concordam comigo, pelos vistos, embora sejam mais comedidos a fundamentar.
Não se pense que recuso valor artístico a qualquer obra concebida para provocar. Max Ernst pintou a Virgem a sovar o Menino, o que fez as delícias de muito ateu que gosta de afrontar. E até quem assina estas linhas, durante uma crise de Fé na Divindade de Cristo que hoje o envergonha, tentou irritar a Mãe, perguntando o que achava da obra. A calma resposta foi que a problemática da Hipóstase, com a Vertente Humana de Cristo, tornava perfeitamente natural que tivesse passado pelos correctivos que são comuns a muitas outras crianças. E mais me ensinou, por palavras outras, que a boa Arte é a que permite facilmente pensar o conceito que a fez, sem se dirigir ao primarismo das reacções.
Nada disso encontro no trabalho que levantou esta celeuma, pelo que me parece evidente que o propósito de tal rã se ter imiscuído no labirinto que vai sendo a Estética, seria o de, com o escândalo, apanhar as moscas que se concretizaram em alguma fama.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Captações

Dia do aniversário de Francis Bacon, pintor de que me incomodam os pressupotos da obra, apesar de reconhecer a sua força expressiva. Dos vários quadros que produziu, subordinados à temática especular, saliento este, Pessoa Escrevendo Reflectida Num Espelho, porque me parece contrariar uma velha ideia feita, a de que a obra passada ao papel espelha o Autor. Pelo contrário, quem escreve é que é um espelho do que aborda, por deformante que possa ser. Nenhum objecto reflector, aliás, nos devolve imagem que não saibamos invertida. É um reconhecimento da realidade, mesmo que alterada por esperado aprisionamento alheio, que nos faz mirar o nosso reflexo. O mesmo engodo que nos leva a procurar num texto o reconhecível, mesmo que com os lados trocados. Nesse sentido espelharemos, por nossa vez, uma imagem do criador de cada escrito, na atmosfera de casa de espelhos numa qualquer feira, em que o ente originário dos milhentos duplos se torna difícil de encontrar. E também acontece outro desvio, o de nos debruçarmos exclusivamente sobre o redigido, sem considerarmos o Autor, coisa de que não se compadece uma linha acabada, tornada ilegível por qualquer superfície que a devolvesse. Salvo em casos-limite como os das urgências que fazem recorrer a ambulâncias com os dizeres pintados de trás para a frente...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Fim dos Estreitos

África, Europa, Ásia
O mar não era forçosamente o Sumo Separador: em matéria de continentes, Valéry não se cansava de dizer que a Europa era um cabo da Ásia. Mas, no nosso imaginário, enraizou-se a ideia do Oceano como barreira, ainda antes do surgimento em força da importância das Américas, porque a acessibilidade à Índia, China e Japão fez da descoberta do caminho marítimo uma espécie de autoestradas cavaquistas, tomando como paralelo o interior do País. Por isso me faz pena que não haja sido associada a esta notícia a obra de Blake que representa Mulheres dos três Continentes nuas e entreligadas, uma imagem da aproximação que se pode tornar realidade. Não creio que as dificuldades de Engenharia o inviabilizem, desde que haja vontade política. E neste campo muito mais dificultosa era a escavação da Mancha...

Depois de terem resistido à concorrência dos aviões, estará reservado às extensões aquáticas de água salgada o mero papel de referências de exílios interiores sonhados?