quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Chuto no Salão

De boas intenções está este inferno cheio. As estatísticas têm de valer igualmente para atestar falhanços, não apenas para pôr em prática atitudes erradas. Com o relatório sobre o aumento comparado das infecções transmitidas por agulha no meio toxicodependente, a criação das salas revela-se uma contraproducente exortação e a política de troca de seringas uma verdadeira troca baldroca. Neste campo a repressão pode não resolver tudo, mas prescindir dela descriminalizando, é um convite para a morte.

18 comentários:

Luis Serpa disse...

Paradoxal - e, no meu caso, inesperadamente, Paulo - as inabilmente chamadas salas de chuto têm um saldo bastante positivo nos países (ou cidades) que as experimentaram. Recentemente, houve em Genève um referendo para saber se se devia prosseguir a experiência com a instalação das ditas (começada, se não estou em erro, há 10 anos, prazo mais do que suficiente para testar os resultados).

Estes foram tão positivos que a maioria da população resolveu dar um carácter permanente ao programa.

De entre os benefícios - creio ser aqui que a verdadeira dimensão do paradoxo se mede - contam-se:
a) Diminuição da dose média por toxicómano e da quantidade de injecções diárias;
b) Aumento da taxa de sucesso das desintoxicações;
c) Aumento da taxa de emprego dos toxicómanos.

Se considerar que as condições de acesso são rigorosíssimas e que só toxicómanos "end of the line" são aceites neste programa a surpresa ainda é maior.

Claro que a posteriori e com a investigação que foi feita à volta do programa é possível explicar a razão destes resultados, mas seria demasiado longo para uma caixa de comentários.

Muito abreviadamente:
a) Devido à diminuição da ansiedade pela próxima dose;
b) Devido ao acompanhamento que é feito;
c) Devido à melhor aparência física, ao melhor estado psíquico e ao melhor estado geral do toxicómano.

(Em Genève as salas de chuto vendem a droga, sem substâncias adulterantes e a preços consideravelmente inferiores aos do mercado. Naturalmente, é necessário consumi-la imediatamente).

Um abraço cordial,

Luis

Luis Serpa disse...

PS - quem estiver interessado no tema e quiser lê-lo em termos mais precisos pode vir aqui: http://www.geneve.ch/social/presse/toxi.html e aqui: http://www.parl.gc.ca/37/1/parlbus/commbus/senate/com-f/ille-f/presentation-f/ucht1-f.htm

Pedro Barbosa Pinto disse...

A minha confiança nos políticos já caiu a um ponto tal, que não consigo deixar de desconfiar que por detrás das boas intenções se escondem sempre outros valores.
Atingisse a toxicodependência apenas os mais desfavorecidos e em vez de salas de chuto não teriamos salas de pontapés?

Ka disse...

E se começarmos a juntar todas as grandes medidas dos últimos tempos tomadas supostamente em benifício da população o resultado é um bocado assustador...confirmamos sempre que a justificação para que sejam tomadas é sempre um bluff (para não dizer mesmo mentira...pronto!)

Mialgia de Esforço disse...

Somos os maiores sempre pelos piores motivos! E qual a leitura que se faz dos fracassos? Emendar a mão? Nem pensar! Prossegue-se como se nada se passasse e ainda com mais "empenho".

Quando o vento não sopra de feição a classe política opta sempre por desvalorizar as estatísticas e afins. O Grande Timoneiro não gosta das previsões do FMI, por isso toca de zurzi-lo. As previsões de Bruxelas não agradam? Não há problema. Manda-se o inenarrável fantasma (sim, porque aquilo não existe!) Pinho proclamar inanidades.

Abraço.

Luísa disse...

Os portugueses ainda não têm grande estima às palavras «prevenção» e «civismo», Paulo. E por isso essas medidas, que têm sucesso noutros países (como refere o Luís), não têm aqui. Isto só significa que é preciso atacar noutras frentes e que, se calhar, um pouco de (re)pressão talvez ajudasse. :-)

LADY-BIRD, ANTITABÁGIKA, FÃ DO JOMI LOL E JÁ AGORA DO NOSSO AMIGO ANTI-TECNOLOGIAS: MARCHANTE (se não existisse tinham que o inventar) disse...

Nem mais, caro Paulo! Sou contra essas salas e não me venham cá com tretas que é melhor, porque esta história até me faz lembrar o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa a dizer que é crime mas não vai presa...
As Salas de Chuto são mais um tiro no pé

Beijinho

cristina ribeiro disse...

Um chuto para a Estratosfera !


( E por falar em chutos, sabe que estou zangada com o Paulo? A dar os parabéns à águia, e logo por uma vitória na casa do meu Vitória, e não houve parabéns ao leão? Bem sei que aproveitei a embalagem dos parabéns em dia do seu Aniversário, mas... :) )
Beijo

mike disse...

Caro Paulo, manifesto aqui a minha profunda desconfiança relativamente a soluções como salas de chuto. A não ser para os avançados dos clubes portugueses.
Abraço.

JúliaML disse...

Também discordo absolutamento. Aliás, o IDT só faz asneira.

Clinicas ou pseudo-clinicas vivem sugando os subsidios do IDT e este organismo nem sequer supervisiona ou fiscaliza os mesmos...Não têm psicologos, tecnicos de saude,nada, estão entregues a eles próprios (doentes) enfim...Ainda por cima, os doentes ou seus familiares, segundo sei, pagam e pricipezcamente!! Só em Portugal...

fugidia disse...

Ainda estou atordoada com o comentário do Luís Serpa.
Não fazia ideia.
Faz-nos pensar, não?

Paulo Cunha Porto disse...

Meu Caro Luís Serpa,
e no entanto, desde 2002, vem-se notando um recrudescimento da SIDA na comunidade toxicodependente de Genegra, mesmo na assim tratada...

Meu Caro Pedro Barbosa Pinto,
os pontapés são dados antes em todos nós na arena do Circo Máximo que é a nossa vida pública.

Meu Caro Mialgia,
mas há sempre um Bnco de Portugal para compensar tanto desgosto do nosso Primeiro. E em falo na anedota dos organismos directamente dependentes...

Querida Luísa,
não posso estar mais de acordo. Na nossa terra, ser ajudado neste campo, num panorama de tanta carência afectica, é ser encorajado a prosseguir na via que rendeu o que passa por miminhos.
Querida Ka,
já os antigos viam a proximidade de Democracia e Demagogia...

Querida Lady Bird,
agora é que me fez perceber a razão delas, sendo de chuto, clato que teria de ser essa a parte anatómica visada! o problema é que nos deixa na mão.

Querida Cristina,
(huuuum, como é que me voi safar desta?) é que como sito as vitórias internacionais dos outros clubes portugueses como se fossem do meu, achei que seria inestético dar-me parabéns, moi même. (uf, saí-me benzinho).

Esses, Caro Mike, sabem lá o que seja sala! Embora, pensando bem, aluns produzam tão pouco que pareçam estar o tempo todo a fazê-la.

Querida Júlia,
houve agora umas ameaças de remodelação, vmos ver se ao menos a propaganda infanto-juvenil dos charros pára.

Querida Fugidia,
mas também lá as doenças voltaram em força...
Beijinho e abraços

Luis Serpa disse...

Paulo,

o SIDA está a recrudescer na parte da comunidade toxicómana de Genebra que não "é assim tratada". Como lhe disse, as condições de admissão ao programa são extremamente severas e restrictivas (aliás, um dos pontos muito debatidos durante o referendo - enfim, antes do referendo - foi justamente o aligeiramento das condições de admissão, porque os resultados eram melhores do que todas as expectativas).

O recrudescimento do SIDA está relacionado com outro factor, ele também paradoxal: a introdução dos tratamentos anti-retrovirais. Passar de 15 ou 20 comprimidos por dia para dois ou três provocou um sentimento de "facilidade" que levou a essa inversão da tendência.

Penso que se pode debater as salas de chuto (esta designação é errónea, estúpida e induz em erro, mas adoptemo-la, por preguiça) de um ponto de vista moral, mas não de um ponto de vista técnico.

E, moralmente, confesso-lhe que não me repugnam nada, mas isso é outro debate.

Tal como (se mo permite) o é a observação da Luísa. Talvez por ter vivido a maior parte da minha vida fora de Portugal não partilho de todo a ideia de que nós somos diferentes, menos isto ou mais aquilo. Traga um alemão para cá e em três semanas ele deixa-lhe o carro estacionado em cima do passeio, em dois meses cospe para o chão e em seis foge aos impostos (a ordem não é bem esta, e a fuga aos impostos está mais difícil, mas o princípio é válido).

Isso é, contudo, outro debate.

Luísa disse...

Não tenho muitas dúvidas de que o que diz é assim mesmo, Luís. Sempre achei que o problema não está nos portugueses, mas nos exemplos que são (de algum modo) incentivados a seguir. Na Suíça, portar-se-iam como os suíços. Cá, seguem o padrão de comportamento das «autoridades» locais, políticas, económicas e intelectuais, bem como dos seus vizinhos, também eles contaminados pelo exemplo das «autoridades». E é nesta base que digo que em Portugal não há grande estima por prevenções e civismos. Mais civismos, aliás, do que prevenções, estas decorrendo daqueles.

Luis Serpa disse...

É verdade, Luísa. Não nego que haja, naturalmente, diferenças de mentalidade, de natureza - o cérebro não é feito de uma matéria diferente do corpo, e se temos compleições físicas diferentes havemso de ter diferenças também no resto.

Mas, como diz, ponha um português na Suiça e ele comporta-se como um suíço; ponha um suíço em Portugal (mantendo igual aquilo que tem de manter igual, claro) e ele fica português.

Se tivéssemos em Portugal um sistema punitivo eficaz como o da Suíça seríamos um modelo de civismo.

(Para lhe dizer a verdade, não me importaria que houvesse um bocadinho mais de civismo, mesmo à custa de um bocadinho mais de repressão, mas isso é outra história.)

JúliaML disse...

por acaso o Luis diz bem sobre o comportamento, eu mesma já fui testemunho do mesmo, na escola.

As crianças orientais, são extramamente bem comportadas, silenciosas, direi que não mentem, riem pouco não se misturando com os de outras nacionalidades.
Noentanto, aqueles, poucos, que se misturam, ficam iguais ou piores...

Luísa disse...

Júlia, um amigo meu, que trabalhava com japoneses, contava que aqueles modelos de contenção, quando aqui eram colocados, tinham de ser chamados à base (Japão) periodicamente para reinoculação de bons princípios, porque, por cá, em seis meses estavam convertidos aos prazeres e indisciplinas da vida nocturna e pareciam «zombies» nos empregos. :-D

Luis Serpa disse...

Peço desde já desculpa ao Paulo por este squatting da sua caixa de comentários, mas não resisto a contar o pior (ou melhor, consoante a perspectiva) caso de aculturação que já vi até hoje.

Foi numa aldeaola qualquer do Sud Kivu, no então Zaire, hoje Congo (não me lembro do nome. Seria talvez Uvira, mas não garanto).

A primeira vez que o vi foi numa noite de Natal, mas depois disso encontrávamo-nos frequentemente (enfim, pelo menos de cada vez que eu ia à dita aldeola).

O senhor falava francês com um cerradíssimo sotaque local, no qual já não se distinguiam nem traços do seu alemão materno; era incapaz de pôr uma camisa - no jantar de Natal nem uma T-shirt, que era o que usava quando ia "à cidade" ("en ville"); sapatos, já havia muitos muitos anos que os seus pés não sabiam o que eram. Quando precisava de se "calçar" enfiava um desses chinelos a que hoje se dá o nome pomposo (e caro) de havaianas.

Vivia com uma senhora local que era ainda mais desleixada do que ele, e tinha-se adaptado completamente ao estilo de vida - e de relacionamento com ela - locais.

Um dia - já íamos os dois numa quantidade de cerveja, ela também, local - disse-me: "Luis, eu, para a Alemanha, não quero voltar nem morto".