quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Guerra Tépida

Que foi um erro trágico transformar a defesa contra ameaças terroristas numa hostilização da Rússia, defendi-o sempre. Por muito que se papagueie que o opositor esperado é a capacidade da engenharia balística Iraniana, quer a disposição do escudo de protecção, quer a intransigência em não permitir a comunhão de princípios e actos defensivos com Moscovo, mais não fazem do que pôr a grande Nação euro-asiática em brasa.
E foi totalmente gratuito, porquanto se alienou com rabinices um apoio que poderia ser precioso, até por no Cáucaso haver conflito em curso, contra guerrilheiros apoiados pelo inimigo que deveria ser comum. Neste sentido, para além da chamada de atenção que é a disposição de armamento direccionado contra as defesas a instalar na Polónia sem grande vontade desta, a declaração do Presidente Russo tem nítida intenção exploratória do estado de espírito da administração americana que tomará posse em Janeiro. Como que lembrando ao Presidente Eleito que, se quer resolver o problema de Teerão directamente no local, deixa de haver razão para o enfrentamento de alces que são cabeças de mísseis neutralizantes encostadas umas contra as outras.
Mas sempre quero ver se a lógica defensiva não se subordina, no caso, a uma outra, de garantir encomendas bilionárias à indústria de armamento, para não agravar a recessão. E aí, como poderá Obama fazer diferente?

6 comentários:

Margarida Pereira disse...

Ele não fará nada (muito) diferente.
E cá estaremos (se Deus quiser) para ver.

Mialgia de Esforço disse...

Subscrevo na totalidade, caro Paulo. A hostilização e o desprezo da Rússia foram das maiores anormalidades da Administração Bush, crendo que o desmembramento da ex-URSS a deixava moribunda. Nada mais errado!

Tomava eu ontem de manhã o meu café com a TV do estabelecimento sintonizada para o Euronews e assisti em directo a parte do discurso do Putin boy. Não foi por acaso que já mandou recados a Obama. Para marcar terreno (tal como o foi a intervenção na Geórgia). E o timing não podia ser melhor.

Se vamos voltar ao clima da Guerra-fria e à corrida aos armamentos? Não creio. A crise económica é prejudicial para todos, até para a Rússia, e não os vejo com vontade de esticar a corda. Claro que vamos assistir a umas trocas de “galhardetes”, mas Obama acabará por reconhecer à Rússia o papel que esta exige.

Abraço.

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Margarida,
neste campo, como poderia? Cancelar as encomendas e aumentar as chances à recessão?

Meu Caro Mialgia,
decerto, não vejo o complexo militar-industrial russo com capacidade de imitar a pressão concorrencial do soviético. Mas o que têm chega para chatear um bocado em situações de não-mobilização total de recursos e algum esgotamento dos aplicados, como é o caso actual da Federação Americana.
Mas claro que a inacreditável opção de estender a NATO às fronteiras da Rúsia, recusando-lhe a integração, revela vistas curtíssimas, a meu ver.
Beijinho e abraço

ariel disse...

Tem toda a razão Paulo. A mim sempre me fez confusão como é não era percetível aos olhos de todos que a forma como a Russia tem vindo a ser tratada nos últimos anos, era um caminho absolutamente irresponsável.

ana v. disse...

Concordo, também eu. Também aí Bush meteu o pé na poça, e também aí pode ter criado um fosso perigoso com a Rússia. Esperemos que a mão seja emendada a tempo de não se cimentar o desconforto, para já não falar em animosidade.

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Ariel,
esse sim, foi um rumo muito comprometedor, não já as cargas de pancada recíprocas no Iraque, apesar da inicialmente amadora concretização e da ausência de ideias sobre o que fazer depois da guerra.

Querida Ana,
o problema é saber se a recessão à espreita não pressiona no sentido inverso do da rectificação de rota...
Beijinho