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sábado, 20 de dezembro de 2008

A Ensinadela

Adquiri ontem um livro que procurava, desde os meus 17 anos. A justificação patrocinada por Pombal, extensa de 522 páginas, da reforma com que tornou a Universidade de Coimbra dócil, expulsando os Jesuítas que dominavam a Docência. O livro é de um facciosismo evidente e indescritível, que, visto à luz do nosso tempo, até passaria por ingénuo, caso não tivesse servido para fundar arbitrariedade. No afã de contrariar a Linha Aristotélica até aí predominante, chega a acusar ipsis verbis de monstruosidades os princípios filosóficos a abater e a atribuir-lhes fins conspirativos. Mas terá sido o tom tão sarrafeiro que levou ressabiados contra os Homens de Santo Inácio, como esse Latino Coelho precursor de propagandas malignas, a chamarem-lhe livro famoso, benemérito da civilização pátria.
Não consegui deixar de confrontar a tentativa de instrumentalizar a aquiescência dos súbditos contra os Veiculadores do Ensino, com a que nos nossos dias, embora com pressupostos diversos, tenta quebrar a espinha à classe professoral, tornada bode expiatório da incapacidade governamental de pôr de pé programas e estruturas à altura das necessidades do País.

Delícias Turcas

A Morte Brincando Com a Medicina, de Hartman SchedelRespigo de um livrinho de 1881 uma informação que nos deve dar que pensar, a propósito da responsabilidade dos Médicos, nos nossos dias. É a de que na Turquia Antiga, mas até meados de Oitocentos, quando morria um pacente por manifesta ignorância de um clínico, era este condenado a trazer ao pescoço duas tábuas donde pendesse uma série de campainhas e nessa conformidade passeado contnuadamente pelas ruas. De cada vez que pedisse para descansar, era obrigado a pagar uma quantia determinada, sendo a função dos guizos a de chamar as gentes para que o vissem e pudessem fugir dele, em sentindo-se doentes.
Nos nossos dias, por dura que até seja a disciplina da Ordem Profissional, escassos são os casos em que se obriga a indemnizar. E os despertadores da atenção que são os Media, epígonos dos sinos, não cumprem função equivalente, muito por culpa da catadupa de notícias do quotidiano, dando conta de situações logo esquecidas e substituídas, enquanto o sistema antigo apelava à memória, mais do que ao usa e deita fora.
Entretanto, ocorreu-me que tendo sido praticada pelos naturais do mesmo País a traumatomância, a adivinhação do Futuro pelo formato das lesões recebidas, conhecida de todos os soldados, dos mais humildes aos maiores generais, que de cor sabiam o «Ikhtiladj Nameh», ou «Livro das Feridas», no caso do óbito se dever a ferimentos incompetentemente tratados, os maus profissionais postos em xeque poderiam defender-se, aduzindo a atenuante de haverem proporcionado ao moribundo um mais lato conhecimento de si...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Memória Embonecada

Tinha prometido à Ka fotografia da Árvore de Natal da minha infância. Procurei uma a cores, que as há. E porque a superstição das nossas assimilações quer que o cromatismo variado dê melhor conta da Felicidade. Hoje, desisti, resolvendo atirar-Vos com esta, a preto e branco. Será mais adequada a um tempo em que já não está completa a equipa, em que se diluiu a vontade de estar contente, só os Afectos Supervenientes que também Vós sois levando a fazer das fraquezas forças para resistir a deixarmo-nos submergir pelo espectro de Scrooge.
A minha Mãe, nesse tempo em que a Realidade não Lhe tinha sido subtraída, denominava esta foto como «Cinco Bonecos». O da extrema-esquerda, quem diria, é aquele que se deleita nestas conversas virtuais com a Vossa Simpatia. Que é uma maneira de reencontrar Alegria. A possível, como diriam os reporters televisivos.
Começo hoje a desejar Aos Que aqui passam uma Santa Quadra.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sinais dos Tempos

Há no Palácio da Independência, a casa de D. Antão de Almada em que os Conjurados se reuniram, um azulejo que representa o milagre de igual dia, em 1640. Logo após os Restauradores terem cumprido a Sua Missão, enviaram ao Arcebispo de Lisboa mensagem para que viesse tomar parte no Governo da Cidade. E assim o fazendo, o Prelado, não se conteve que não rezasse a Santo António, ao passar na Porta que Lhe levava o nome, pela sorte destes Reinos às Suas Gentes devolvidos. Eis quando os circunstantes viram o braço direito do Cristo do Crucifixo da Cruz Metropolitana do Dignitário Eclesiástico desp(r)egar-Se e fazer sinal por todos tidos como de encorajamento.Que diferença para estes tempos sem Rei nem Lei, em que ninguém já se fia na Virgem para coisa pública e ainda menos corre por ela. Se libertar-se das ordens de Madrid encontrou nos nossos Maiores a vontade de Acção que combina com o Gesto de incitamento da imagem do Salvador, estes esquecidos de Deus que vamos sendo, comodistas ao ponto de não reagirmos contra o domínio de Bruxelas, mesmo que contemplados por Nosso Senhor, na Sua Infinita Misericórdia, com um aceno similar, pondo a mão na consciência, decerto interpretaríamos o movimento como a despedida que fazemos por merecer.
E depois de tão triste confronto não pude deixar de pensar em Bombaim, dado na sequência daquele Primeiro de Dezembro em jeito de moeda de troca de uma Aliança garante. Se tivesse permanecido na dependência da Coroa Portuguesa, a nossa marca civilizacional, que teve o apogeu em Goa, teria impedido a fervura no caldeirão de ódios que levaram aos atentados e morticínios recentes?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Toca Sempre Duas Vezes?

Não posso deixar de pensar que situações como esta, mais do que traduzir as fraquezas da rectidão humana, se ficam a dever ao anonimato progressivo a que muitas profissões são votadas. Antigamente, excluídas as micropovoações onde a extensão dos Correios era cometida a populares distribuidoras de outras mercadorias, confiava-se no Carteiro como um pilar social, ao ponto de, muitas vezes, ser ele a desempenhar tarefa para que não era remunerado, a leitura das missivas dirigidas a iletrados. Um resquício dessa confiança encontrei-o, não há muitos anos, ao saber da eleição para presidente camarário do único município da Ilha do Corvo do profissional desse ofício.
Na Urbe e arredores, cada vez mais, a tendência foi a de perder de vista a consideração pessoal dessa função, já que a actividade respectiva se subsumia à rotina sem rosto que se furtava ao nosso olhar, por estar bem debaixo dos nossos olhos. Chesterton desmascarou tal miopia psíquica no conto «O Homem Invisível», em que faz um assassinato ser cometido por um agente escamoteado às vistas das testemunhas - mas não ao raciocínio reconstituinte do Padre Brown - por um uniforme de responsável das entregas postais.
Da mesma forma, o dinheiro de plástico, de cartões creditantes debitantes e o Diabo a Sete, subtraem à vigilância do olhar a concreção do dinheiro, sempre equiparada a metal sonante ou cédulas sucedâneas. E, quando se juntam a evaporação da identidade de que dependem as imputações criminais e a abstractização da matéria sujeita a gamanço, chega-se o fogo à pólvora.
É o Progresso!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Uma Lança em África?

Alegoria da África, de BartholdyOntem, ouvindo Miguel Sousa Tavares, no noticiário das oito da TVI, assaltaram-me sentimentos contraditórios: simpatizo com a revolta que exprimiu, por ver as populações de muitos dos Países do Continente Negro entregues aos desmandos de uma classe política insaciavelmente corrupta e, o que é pior, sem escrúpulos de infligir gratuitamente sofrimentos aos que lhes estão submetidos. Isto, apesar de lhe ter escapado uma florzinha falhada, quando, querendo dizer que não o viessem tentar calar com o estribilho da pesada herança do Colonialismo, lhe saiu, em vez, a conversa do fardo do Homem Branco, que foi peditório para que já dei. Esta expressão, como se sabe, foi celebrizada por Kipling e significava o que na presente discussão poderia ser tomado em sentido oposto - a responsabilidade civilizadora transformante que considerava da competência dos Euro-Americanos.
No que não há meio de concordar é com a solução que propôs: a ONU (e a UE!) dizerem aos Estados mais afectados por este flagelo que não podem continuar a governar-se, no seu próprio interesse. Confiar a cura a organizações destas, seria enviá-los para destinos que, em vez de passarem por institutos de regeneração, funcionariam como escolas de crime, isso sim, além de, no caso das Nações Unidas, equivaler a confiar o tratamento a um dos principais responsáveis pelo mal, como prova a vergonhosa avalanche de debates e resoluções da década de 1960´s.
Não se deveria começar por uma reavaliação de presenças europeias históricas como a nossa, muito menos friamente voraz do que outras?

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Estar Pelos Cabelos

Na sequência dos comentários ao post anterior, tenho de registar a escravização do visual feminino às modas mais inacreditáveis, como já noutro lado demonstrei. Em tempos de decadência como o nosso, procura-se receber do Exterior as qualidades e fortalecimento espiritual que se não consegue gerar por si, veja-se a justificação aventada para a voga dos Dreadlocks importados das Caraíbas e respectivas reminiscências africanas.
Mas noutras épocas os usos não eram menos infelizes, apesar da atenuante de tentarem exprimir sentimentos de dentro para fora, o que, em função do exposto, não é tão pleonástico como isso. Na Corte de Luís XV espalhou-se de tal forma o estilo Independência, ou Triunfo da Liberdade, pelo júbilo de bom tom resultante da derrota inglesa contra os rebeldes Norte-Americanos, que se generalizou esta beleza de arranjo capilar em forma de barco evocativo, ao ponto de a pobre Maria Antonieta, aquando do seu noivado, ter sido obrigada a fazer-se retratar neste preparo, para demonstrar o quão Francesa se queria tornar, submetendo-se inclusivamente aos ditames da moda respectiva.
O que poderia passar por uma efémera excentricidade e primeira imposição de perda da cabeça à Infeliz Futura Guilhotinada acabou por prolongar-se de forma imprevisível, pois, uns oito anos mais tarde, a Fragata La Belle Poule travou um combate com um vaso britânico e conseguiu afugentá-lo, coisa tão rara que motivou nas mesmíssimas aristocratas fascinadas pela Política a adaptação no cabeleireiro que desse prova do patriotismo que lhes saltava dos peitos.
Para verdes quantos sacrifícios eram exigidos Àquelas Altas Senhoras tão amigas do Seu País, como as carruagens não tinham altura suficiente para maluqueiras semelhantes, faziam-se transportar nelas ajoelhadas durante o trajecto inteiro para os compromissos sociais a que deviam assistir. E ninguém se lembrou de invocar tais sacrifícios como contra-prova das acusações de traição, nos "Tribunais" Revolucionários!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Fim de um Mundo

Em 11 de Novembro de 1918 assinava-se o armistício que pôs termo à Grande Guerra, a 1ª que se ensaiou como Mundial. Daí resultariam os tratados que destruíram a benevolente Pax Habsburguica e fizeram de uma Alemanha mutilada, mas não reduzida à incapacidade, o ressabiamento que espreitava a cada esquina a vingança de um tratamento sem precedentes. Com a tristemente célebre Revolução Francesa já se tinha evacuado o espírito de Fontenoy, em que as elites de ambos os lados trocavam cortesias sobre quem dispararia primeiro, sem que por isso se renunciasse à mortandade inerente a qualquer combate. Mas ainda se preservara um tanto as aparências, com um criminoso de tacticismo genial, o primeiro Bonaparte, a ser tratado com algum respeito na derrota. Agora, era outra página que se virava, depois da invasão da técnica massificadora de sacrifícios. Potências extra-europeias davam-se ao luxo de se aliar ao mais remoído dos revanchismos na arbtrariedade do desenho de fronteiras, como na exigência de penalização dos dirigentes dos vencidos. Clemenceau, mais tarde, na Academia Francesa, perguntaria a Anatole France o que achava das condições impostas à Alemanha, pelo Tratado de Versalhes. A resposta foi: criásteis a maior arma para a guerra futura.


Os Veteranos das trincheiras produziram uma elite cultural que não se queria semelhante a qualquer grupo sem aquela experiência partilhada. Estava aberto o caminho para uma Tragédia maior, de que ainda vamos pagando umas sobras.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A Sociedade Aberta

O Magistrado, de MoroniMuito se fala contra a intromissão de Magistraturas na decisão governativa, mas parece-me elementar a vantagem de elas corrigirem os erros desses profissionais da Política que se sentem ameaçados. Hoje como ontem. No Século XVII, Jerónimo da Costa, um Cigano que se não sabe proveniente de Espanha ou da Sabóia, armou-se à custa da própria bolsa e pelejou bravamente pela causa Portuguesa, morrendo na Batalha do Montijo.
A Viúva, desvalida, requereu naturalização e amparo para o filho, obtendo a primeira e a concessão de que fosse ao descendente ensinado um ofício mecânico.
Porém, submetido o alvará ao Procurador Geral da Coroa, Tomé Pinheiro da Veiga, achou este insuficientíssima a recompensa. E logo ali lavrou censura, dizendo que ao ofício mecânico devia Sua Majestade mandar pôr o ministro que tal despacho deu.
E mais disse, que o Cigano, defendendo terra que não era sua e morrendo no campo quando muitos naturais dela fugiam do combate, merecera mais do que grande número de portugueses que haviam combatido na mira de recompensas. E que, além de mandar pagar à viúva os soldos que o caído rejeitara, se desse ao filho pelo menos o foro de cavaleiro fidalgo, já que seu pai tão bem cavalgara em serviço da Pátria; que se lhe proibisse qualquer ofício mecânico e se ordenasse que ele e sucessores servissem na milícia e nos presídios, para honra e glória do valente e leal morto.
Uma correcção actualíssima, tendo-se presente como entrada na Ordem da Nobreza desempenhava, com mais seriedade, o papel das condecorações de hoje. E pena é que nos nossos dias a nacionalidade seja atribuída segundo formulações gerais e abstractas e não em função do mérito concreto, como na antiga Monarquia Portuguesa. Além de que de lamentar me parece não ser confiada a instâncias independentes a possibilidade de emendar a(s) mão(s) que os carreiristas dos partidos metem pelos pés.

sábado, 25 de outubro de 2008

Ironia da História

Não é que foram precisos trinta e quatro anos, com ocaso do Comunismo pelo meio, para que esta ameaça do PREC se viesse a concretizar?