
Tinha a dúvida de que, sendo o
obamismo um movimento, o Homem, que lhe é muito superior, não acabasse sufocado por ele, O primeiro sinal foi em contrário e alegra-me registá-lo. É normal fazer discursos de apelo à unidade, depois de uma corrida eleitoral, naquele País. Menos, já, é insistir na identidade partidária oposta de um predecessor dado como exemplo, qual o caso de Lincoln, do mesmo
homestate do Presidente Eleito, mas da cor política contrária. E a retórica dominadora de que faz gala voltou a servi-lo, não sendo arrastado pela ritual gritaria do
slogan célebre pela mole humana impaciente, antes retardando o momento em que o rifão era repetido, mas depois - e só depois - de o Orador dar o mote.
Aliás, esta entoação de
yes we can trouxe um revivalismo religioso à campanha, é nitidamente um prática de serviço sacro. Só se falou desse aspecto para apontar ideologias das populações, ou dar conta dos males de que a companhia do radical Reverendo Wright poderiam trazer, eleitoralmente. Muito mais interessante, quanto a mim, seria auscultar a penetração que este modo tipicamente sacro-cultual permitiu, desde as comunidades ruralistas do Iowa, aos rombos no
apartheid de facto que, até agora, vigorava estritamente entre os Baptistas do Sul, muito cortejados pela próxima Primeira Dama. Interessante, num País feito para reduto de uma Cristandade não-ortodoxa, que tais comportamentos surjam de um Político membro da Igreja Unitarista, a que procura congregar aspirações de Espiritualidade que não fazem questão do Cristianismo prévio, chegando mesmo a oferecer abrigo a ateus, coisa pouco pensável na Presidência, apesar do cepticismo de um Andrew Jackson.
Na prelecção da vitória vimos o segundo acto de autoridade bem sucedido de Obama. O primeiro foi a recusa em ceder às pressões para que escolhesse Hillary como
vice. Talvez tenha aí começado a cimentar o triunfo que já desenhara ao transformar a rede de donativos da
Internet que herdara de Dean numa poderosa máquina de recolha de fundos mais abrangente do que a que se resumisse à ala radical dos
Democratas. Veremos se tantas esperanças não se virarão contra ele. Tenho a sensação de que é difícil um nível tão alto de expectativas, coisa de que Clinton e Bush não beneficiaram, deixar de cair na desilusão extrema.