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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Minha Iniciação

Manda a Gi que eu manifeste os meus primeiros passos no Mundo das Letras. Já aqui dei conta dos relativos ao período em que era absolutamente principiante. Urge, portanto, retomar o fio da meada onde ficou a ponta por pegar.
Uma das primeiras leituras foi a das Aventuras de Tintim, que me fascinaram, nem tanto pelo protagonista, mas sim pela inolvidável figura do Capitão. Penso que aí fiquei de vez configurado no sentido de identificar a perfeição não com o sucesso, muito mais com a disponibilidade de aplicar-se totalmente, entrincheirada em separações radicais do que se gosta e daquilo que nos impressiona mal. Segui pelo Astérix a que ainda volto bastante e muito, muito, pela escola Disney Brasileira, de que ainda conservo um malão cheio, para possível êxtase das traças. Passei da Banda Desenhada para os textos com Blyton, onde detestava os Sete, porque assumidamente infantis e desconfiava dos Cinco, os quais via como demasiado preocupados. Era a série »Mistério», com o Gordo & Cª. a pregar partidas ao polícia Arreda que me enchia as medidas, talvez por paixão precoce pelos disfarces físicos e para alimentar uma costela anarquista contra a baixa autoridade, em ordem a aliar-me à de posto mais elevado.
Fora disso, também já contei algures como a minha Mãe me passou para as mãos os romances de Júlio Dinis e a «Guerra e Paz» de Tolstoi, enquadrando muito embora a leitura com a explicação histórica, facto que me causou algum traumatismo de que ainda me não livrei.

Mas, logo em seguida, veio o conjunto que quero hoje enaltecer, a «Colecção Histórias», da Bertrand, onde tomei o primeiro contacto com muitas obras de que logo quis ler uma versão mais adulta. Era coisa admirável para fomentar hábitos de Leitura. Livros que me marcaram, como «Os Três Mosqueteiros» e «Vinte Anos Depois», de Dumas, o «Robinson Crusoé», de Defoe, ou «A Flecha Negra», de Stevenson, aí tiveram o primeiro contacto. O facto de alternarem as páginas de texto corrido com as de uma súmula, em quadradinhos, tornavam-nas particularmente apelativas e eficazes, em ordem a despertar a curiosidade e o seu filho, o vício. Aí, com o Sinbad, vivi a primeira aproximação às «Mil e Uma Noites», que, posteriormente, li por completo, quer em boa versão portuguesa da opção realista de Mardruz, quer numa edição setecentista do elegante Galland, que possuo. E ainda guardo o projecto de me abalançar à transposição de Burton, no Inglês em que ficou. Hoje por hoje, depois de ter estudado não sei quantas páginas sobre o Robim dos Bosques, quer em ensaios sobre a lenda, quer em ficções, é ao tríptico constante deste grupo que me mantenho fiel, no estabelecimento da ortodoxia narrativa.
Em sequência, viria outro conjunto importante, o da «Biblioteca dos Rapazes», da Portugália, começando pelo terceiro da série Dumasiana, «O Visconde de Bragelone», não publicada na anterior. Logo após o que a Entidade Materna me achou maduro para me meter nas mãos «A Cidade e as Serras». Estava lançado!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ó Vã Cobiça!

Livros Antigos e Tesoura, de Christopher Stott

Muito gentil e oportunamente chamou-me a Patti a atenção para certa notícia. Qualquer amador de livros fica contristado, mas, para além disso, logo me interessou saber as motivações deste estranho personagem. O ar não é susceptível de tranquilizar quem quer que seja, mas exige-se de quem escreve um pouco mais do que imputar actos criminosos das pessoas às aparências respectivas.
A princípo, confesso o preconceito, ao constatar a origem iraniana do indivíduo, pensei que fosse uma espécie de terrorismo cultural, até porque os specimens mais atingidos pelos recortes assassinos eram obras que falavam da expansão Ocidental em terras hoje islamizadas.
Graças à net pude investigar um pouco mais e desenganar-me: pelos vistos, tratava-se apenas de uma patologia mental de coleccionador compulsivo. Por que será que não me admiro por aí além? Tenho, desde há muito, a noção de que quem se dedica ao coleccionismo está a um pequeno passo do crime. Eu próprio já me surpreendi a dizer a "concorrentes" que o livreiro tal nada tinha de interessante em certo dia, quando estava a abarrotar de volumes apetecíveis. E noutros vi coisa pior, até o furto.
Roubalheira não encontro neste caso, apesar de poder parecê-lo. Suspeito muito mais de um despeito dos mais desequilibrados, que, não podendo possuir exemplares únicos, mutila os que existem, para que mais ninguém os tenha. E que guarda as páginas amputadas como troféus dos seus êxitos malignos na senda da destruição.

No Dia da Pessoa com Deficiência outros farão melhor do que eu a exaltação da necessidade de comportamentos dignos para com os que foram atingidos por essas limitadoras infelicidades. Mas talvez não seja de todo descabido ver no Livro um símbolo do Homem. E nestes, irremediavelmente aleijados, um paradigma dos estropiamentos que resultam da maldade humana.