O Professor Severo, de Jan Steen

Antes do mais, devo confessar um preconceito: acredito que a única avaliação de desempenho de um professor digna desse nome é a observação do que os alunos dele vierem a ser na vida. Mas reconheço que, com a especialização e diversidade de disciplinas, seria sempre preciso isolar aquele que haja sido determinante, de todos os outros que se tenham dissolvido na poeira.
Se o afrontamento da classe docente empreendido metodicamente pelo governo socrático fosse apenas uma tentativa de melhorar o Ensino, seria uma lamentável falta de jeito, pois onde o segredo estaria na eliminação da rotina, mais não faria do que estabelecer outras - dispersivas e castradoras -, com fixações de objectivos e preocupações de carreira mais dignas de empresas do que do sacerdócio que educar deveria ser.
Estou, todavia, em crer que nos encontramos perante um exercício de demagogia refinado, prometendo a melhoria da Educação e criando um sistema impossível de aceitar, para não se vir a ser dado por culpado de nada fazer, quando, na prática, se abafa com a polémica a abstenção de cumprir o dever de selecção dos funcionários e de elaboração de programas com mais qualidade. O Sr. Sócrates nada arrisca, não só por as reacções adversas serem endereçadas à Ministra da tutela, sempre remodelável, como por a encravada simpatia pelo PS, dominante entre os que dão aulas, ameaçar sempre esgotar a contestação nos protestos, sem que extravase para os votos.
E mais, joga numa
bodexpiatorização dos mestres, só possível pela alteração dos cuidados paternos na Sociedade actual. Quando os fedelhos passavam mais horas com as famílias, os progenitores apercebiam-se das mediocridades naturais da pouca idade e confiavam nos educadores quanto ao complemento da formação, aceitando a exigência como natural. Nestes tempos decadentes, para se desculparem da falta de disponibilidade para com os rebentos, acham-se dispostos a tomar partido por eles, uma vez surgida qualquer desinteligência na escola. Se somarmos isto a uma assimilação acéfala aos problemas de gigantismo ineficaz dos serviços do Ministério, estão criadas as condições para fazer do Professor um inimigo e aliar ao Primeiro Ministro uma ambicionada
Maioria Silenciosa que o continue a sustentar.
Dirigente de juventudes partidárias, o Chefe do Executivo lá deve ter aprendido que
dividir para reinar rende sempre dividendos. Onde o tiro lhe pode sair pela culatra é precisamente na horizontalidade que o ofício de transmitir os conhecimentos alcançou no Portugal de hoje. São em número incomparavelmente maior as famílias que têm um professor no seu seio, pelo que lhe ouvem as queixas e compreendem a gravidade. Ao ponto de muita gente que não a directamente interessada ter apoiado a megamanifestação anterior à de
ontem. Os dados estão lançados.