domingo, 14 de dezembro de 2008

Sapatos do Defunto

O mais triste do episódio ridículo do arremesso de sapato ao Presidente Bush no périplo iraquiano nem é a satisfação parcial com que muitos críticos impotentes dele se sentirão vingados, sublinhando o carácter infamante que tem na cultura Árabe o gesto. Não, o que é grave é ter sido um jornalista a fazê-lo. um gentleman of the press tem todo o direito de protestar contra o que queira, mas tem obrigação de fazê-lo por escrito, que é o seu meio de expressão esperado. Degrada-se muito mais do que ao alvo ao, desta maneira, ser apanhado descalço.
Porém, o mau exemplo deu-o, afinal um expoente da classe política, o antigo líder soviético Krushchev, quando, na Assembleia-eneral da ONU, bateu com o seu calçado na mesa, por querer contestar colaboração militar hispano-americana e não o deixarem usar da palavra tão facilmente como desejaria. Em vez de ser a consciência dos governantes, a Imprensa copia-lhes os vícios. Estão bem uns para os outros. Há muito que os vários Poderes, do Mando à Escrita, deixaram de ser exercidos por uma classe caracterizada pela polidez. Bem dizia Alguém importante na minha formação, que jamais confiasse em quem facilmente se descalça em público.
Mas, enfim, há uma alegação que a Defesa pode contrapor - a de ser uma saída natural em quem politica ou informa com os pés. Cheira mal, naturalmente.

7 comentários:

ariel disse...

Querido Paulo, não conhecia tão certeira máxima. Mas conheço uma outra que chama a atenção para sapatos e o cabelo, como indicadores do bom gosto ou da falta dele...o sapato exposto do Krushchev parece-me de gosto muito duvidoso também.

Beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Inteiramente de acordo, caro Paulo.
Além do mais, no momento em que Bush está prestes a ir para a reforma, o gesto é desprovido de qualquer sentido. A única vantagem, foi mostrar que Bush ainda tem bons reflexos. A agilidade com que se esgueirou do projéctil poderia ter sido mehor aplicada a desv iar-se da estúpida guerra do Iraque que nos conduziu a esta cise medonha.

Luísa disse...

Subscrevo o seu post, Paulo, e os comentários anteriores sobre as questões do bom-gosto e da inutilidade do gesto. Destaco, particularmente, a conclusão da Ariel, acrescentando-lhe que a coisa, à primeira vista, parece mais um chinelo do que um sapato. Ora não é possível respeitar quem exibe chinelos numa Assembleia-Geral da ONU! ;-)

Gi disse...

Tem toda a razão Paulo; o jornalista só pode ser masoquista: gosta de apanhar, só pode.
Quanto a Bush, já pode ir servir de alvo móvel, tal a destreza que mostrou ao escapar do prjéctil.
Deveria ser um treino para qualquer governante.
Se a moda pega por cá, em vez de ovos e tomates, teremos sapatos com sulfato de peúga.

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Ariel,
ai não que não concordo com a Menina! Terá sido mesmo essa uma das razões de, posteriormente, termos passado a empreender grandes exportações de calçado para a Rússia!

Meu Caro Carlos,
sempre me pareceu que o Secretário Rumsfeld me lembrava algo. Graças a Ti, descobri - um sapato cambado!

Querida Gi,
graças a este comentário tive um momento de détente, ao imaginar a Ministra Milú a viver uma contrariedade destas. Essa é que não desgostaria, afinal apanhar descalços os Professores parece ter sido o mal-sucedido intuito dela.
Beijinhos e abraço

Querida Luísa,
realmente, andar por aí com tão pobre ferradura não sec recomenda. Permito-me apenas discordar da Minha Briosa Amiga num ponto: parece-me que o nível da ONU, e facto, aconselharia a ser calcado pela sola mais ordinária...

JúliaML disse...

eu deliciei-me com os reflexos d Bush.

É verdade, essa do descalçar-se em público. A minha mãe dizia o mesmo. :-)

ana v. disse...

Um "gentleman of the press"??
Paulo, estamos a falar de um país massacrado e destruído pela guerra, onde o simples acto de respirar pode matar... esperas punhos de renda de alguém nesse cenário, quando tem à sua frente o homem que considera responsável por todas as suas desgraças??? Foi um gesto desesperado mas extremamente corajoso, que será provavelmente pago com a própria vida.
É sempre tão fácil falarmos, na segurança e no conforto do nosso sofá... experimentem pôr-se "in his shoes"!