segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nós e os Laços

Foto de Adriano Miranda
Sempre li e ouvi com atenção Alçada Baptista. Mais do que a sua ficção, que, embora nada desprezível, não me despertava arrebatamentos, muito cedo contactei com a autobiografia espiritual num percurso sem a linearidade do simplismo, a que não raro voltei. Desde cedo me fez impressão que se prestasse à promoção do político que achava mais detestável no anterior regime, como do que acho mais execrável, neste. E a publicitação do seu desgosto com um passo encorajador na letra do hino pareceu-me, como à quase totalidade das pessoas que conheço, um excesso de zelo de aspiração à concórdia que nos fez algo impiedosamente dá-lo como rondando a patetice.
Todavia, um Escritor deve ser julgado pela sua obra. Essa aí está e longe de não merecer atenção. Do Homem poderei dizer que o ouvi com interesse em conferências, unicamente pela apreensão do humano que sabia transmitir, porque era pouquíssimo dotado, de seu natural, para a Oratória, embora não assim para a conversação. Lembro uma sobre o Memorialismo, no Museu Conde Castro Guimarães, aqui em Cascais, em que, sobre a alienação do consumismo, tão na ordem do dia, duvidava em voz alta de que a educação tivesse um papel decisivo em fomentá-lo, ou esbatê-lo. Contava:
tenho vários filhos, uns não se preocupam nada com isso, quando precisam de um fato vêm pedir-mo emprestado; outros andam sempre a fazer compras. E foram todos educados da mesma maneira.
Mas, por falar em Educação, no tempo infame em que eu era advogado estagiário, presenciei um julgamento cível por causa de um prédio, com ódios de vizinhança e um cão de permeio. O Falecido tinha ido testemunhar por um dos lados, a Moradora adversária do cão. Uma filha Dele, pela parte contrária, o Dono do dito. O depoimento do Escritor, tratado com toda a deferência pelos juízes, foi para esquecer, insistia em falar dos problemas jurídicos subjacentes na administração do condomínio, quando só interessava que respondesse sobre factos. Mas o da Filha impressionou-me sobremaneira: não quero crer que a mentira seja a regra dos testemunhos em juízo, mas é-o certamente a omissão de verdades desfavoráveis ao lado por que se está, como a configuração dos relatos de acordo com o que mais o favoreça. Pois foi essa, até hoje, a prestação de declarações mais imparcial que escutei, para mais tendo dado a saber que não falava à outra parte. Pensei na altura e ainda penso que um Homem que incute tal conduta num Filho tem de ser estimabilíssimo. Cada vez mais acredito que as intervenções políticas são as que menos revelam a dimensão de um Ser Humano.
Inclino-me pois perante a Sua Memória, na altura do termo desta etapa.

12 comentários:

cristina ribeiro disse...

Amén!
Beijo, Paulo

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Cristina,
Que o Senhor O acompanhe!
Outro

Patti disse...

Olha que desafio tão giro! Não o vou fazer já, mas tenho aqui o livro, bem ao meu lado.
Obrigada.

Tb sou fã da Allende!

RAA disse...

Fechaste com chave d'ouro, pá!
Ab.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu também gosto do Alçada ficcional, pela forma desempoeirada e dsinibida como ele descreve os afectos. A sua sensibilidade sempre me fascinou.

JúliaML disse...

concordo consigo, Paulo!

b.q

Grande Jóia (GJ) disse...

Das pessoas recordamos pequenas coisas, mas o que importa é o que as pessoas nos dão para recordar.
No caso do Alçada Baptista foram os afectos nas palavras. Concordo consigo, Paulo.

Paulo Cunha Porto disse...

querida Patti?
Desafio? Não era dstinada a resposta a outra caixa?

Obrigado, Grande RAA, também estavas na conferência evocada. Lembras-Te?

Meu Caro Carlos,
é uma ficção digna, com uma capacidade de fixar as relaç~ies de uma época diversa, nais do que a de hoje. Mas eu peço mais às concretizações da Imaginação.

Querida Júlia,
que Alegria!

E do meu, como sabe.

Querida Grande Jóia,
obrigado,
penso que era realmente essa a impressão mais forte que deixava.
Beijinhos e abraços

RAA disse...

Olha, não!...
A velhice, meu caro!!...
Ab.

Anónimo disse...

Deste um rosto ao autor de um livro que, de entre muito poucos, veio ter comigo ao meu exílio, por engano. E ficou.
Com esse nome.
Ironia do destino.
Ou doçuras tremendas do infinito, que às vezes, justamente, parece brincar com estas pequeníssimas coisas.
Como se todas elas fossem regidas por genial cineasta...
Um rosto muito impressionante. Um livro que reli e releria sem qualquer cansaço.

Uma homenagem muito bonita. Como é o costume do obstinado autor deste blog.

Terpsichore

Anónimo disse...

Saudades à Cristina Ribeiro, também!

Terpsichore

Paulo Cunha Porto disse...

Oh Diabo! Meu Caro RAA, velhice não digo, mas há umas pastilhas de fósforo que ajudam em qualquer idade...

Querida Terp,
que alegria, ver-Te a comentar novamente em minha casa!
Obrigado, qualquer mérito é do Escritor e do Homem cujo passamento se assinala. Limitei-me a dar conta de dois episódios desconhecidos da generalidade do Público e que dizem da Qualidade do Ser.
Beijinho e abraço