quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Cruzes, Credo!

A demissão da directora do museu de Bolzano responsável pela exibição da tela menos do que medíocre de uma rã crucificada tem toda a justificação e mais alguma. Não pelo critério da ofensa à Religião - que não foi sequer o invocado -, embora seja muito engraçado que toda a gente possa sentir-se ofendida com um crucifixo numa sala de aulas e esteja vedado aos Cristãos insurgirem-se contra a representação grotesca que parodia o Símbolo sob O Qual se norteiam. De notar que a mesma senhora foi criticada por patrocinar uma exposição em que se destacava uma suástica e que o quadro da polémica poderia concitar a ira dos defensores dos direitos dos animais. Mas como a Igreja Católica é que faz correr atrás, seja com o círio ou com o cacete, já Buñuel dizia, é para aí que embicam.
A meu ver, o despedimento é mais do que justo, pelos gastos injustificados de que a acusam. Com efeito, não examinei as contas da instituição, mas qualquer mísero tostão gasto com trabalho pictórico tão mauzinho seria mais do que perdulário. Dir-se-á que é a minha opinião E eu responderei que é para a ler que aqui vieram. Se relevância se quer atribuir a algum juízo, terá de ser endereçada a quem de direito, quer dizer, ao dos administradores. E esses concordam comigo, pelos vistos, embora sejam mais comedidos a fundamentar.
Não se pense que recuso valor artístico a qualquer obra concebida para provocar. Max Ernst pintou a Virgem a sovar o Menino, o que fez as delícias de muito ateu que gosta de afrontar. E até quem assina estas linhas, durante uma crise de Fé na Divindade de Cristo que hoje o envergonha, tentou irritar a Mãe, perguntando o que achava da obra. A calma resposta foi que a problemática da Hipóstase, com a Vertente Humana de Cristo, tornava perfeitamente natural que tivesse passado pelos correctivos que são comuns a muitas outras crianças. E mais me ensinou, por palavras outras, que a boa Arte é a que permite facilmente pensar o conceito que a fez, sem se dirigir ao primarismo das reacções.
Nada disso encontro no trabalho que levantou esta celeuma, pelo que me parece evidente que o propósito de tal rã se ter imiscuído no labirinto que vai sendo a Estética, seria o de, com o escândalo, apanhar as moscas que se concretizaram em alguma fama.

13 comentários:

Ka disse...

"Dir-se-á que é a minha opinião E eu responderei que é para a ler que aqui vieram."

E eu digo que concordo consigo nesta sua opinião. Apeans acrescento que é sempre amis fácil odiar-se e criticar-se a igreja do que o contrário.

Excelente texto!
Beijinho

ps - com que então a provocar a mãezinho... :P (não me diga que a sua mãe teve de recorrer ao mesmo correctivo pintado por Max Ernest :) )

cristina ribeiro disse...

A primeira coisa que se me oferece dizer, Paulo, é a velhinha, mas muito actual " uns são mais iguais do que outros".
Quanto à chamada "arte ultra-moderna" é impressão minha ou caiu-se no vazio?

fugidia disse...

O que me ri com a resposta da mãe, PCP...
:-)

Irene disse...

até a arte é entendida sob o prisma de (pre)conceitos mas sê-lo-á sempre...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Meu caro Paulo, não sei porquê, este teu post fez-me lembrar os "artistas" da Gebalis...

Marie Tourvel disse...

Adorei seu post, Paulo, querido.
Sabes que labirinto sempre me atraiu? Desde a história de Ariadne.
Beijinhos.

(Acatei seu pedido. Prepare-se que na próxima semana vai um resumão do Cervantes. :))

Safira disse...

Como amante de arte e anfíbios em geral, e de rãs em particular, insurjo-me contra a exploração da imagem do indefeso animal.
Para além das celeumas religiosas, (para mim seria o mesmo se fosse uma rã de turbante a recitar o Corão com um cinto de explosivos e muitas rãzinhas virgens a espreitar por entre as nuvens), entendo que a 'arte' precisa de um valente abanão, e que os arrivistas trendy que andam na berra em chiquérrimas galerias só por mandarem uns salpicos para uma tela ou serem 'provocatórios' deviam ser condenados a copiar os cadernos de esboços de Da Vinci, de uma ponta à outra. Para perceberem que não basta parecê-lo. Neste caso é mesmo preciso sê-lo. E há que ter coragem para dizer aos trendy: amigo, isso é mesmo horrível. Arte? Só se for na indução de vómito.
Arte desta?...Passo, obrigada.
É só a minha modesta opinião, mas fazem-se de facto aberrações nos tempos que correm. E já nem falo do escandaloso caso do cão a morrer de fome, que não deu cadeia a ninguém, e ainda não consegui perceber porquê!!!
E antes que me entusiasme nas descrições gráficas do que eu faria a esse 'artista', remeto-me a um respeitoso cumprimento.
Beijinhos

Paulo Cunha Porto disse...

Obrigado, Querida Ka,
concordo plenamente, a Igreja é um alvo identificadíssimo, porque não se esconde. Por outro lado, a Mensagem que prega é, justamente, a da superação dos ódios.
E, sim, era o que o catraio estava a pedir. Mas Amor de Mãe preferiu aplicar uma surra mais intelectualizada, talvez com uma esperança desenvolvimentista que, provavelmente, desminto todo o Santo Dia.

Querida Cristina,
estou longe de rejeitar toda a Arte Moderna. Digamos que, com o amolecimanto dos cânones e a proliferação de mecenas e públicos ansiosos por acertarem no "seu" génio privativo, passou a impingir-se muito gato por lebre, quando o lugar por excelência dos bichanos não é no prato...

Querida Fugi,
desde aí percebi que a calma é a reacção que mais frustra os provocadores gratuitos...

Querida Irene,
sempre! A maneira mais fácil de arranjar adeptos é inventar um inimigo comum contra quem se vomitem ímpropérios. A voragem e cegueira das aversões partilhadas atrofia o juízo crítico.

Meu Caro Carlos,
ehehehehe, pois eu estava tentado a publicar com mais destaque este comentário, para ver certas caras...

Obrigado, Querida Marie Tourvel,
como disse uma Especialista Lusa deles, do blogue «Espelhos e Labirintos», estes últimos não são tanto os lugares em que nos perdemos, mas aqueles em que continuamos a procurar.

Querida Safira,
adoro a Sua Justiça, não sei se já tinha dito... O castigo imaginado está proporcionadíssimo, se considerarmos os crimes pictoricamente cometidos. Sobre o caso do cão guatemalteco, nem me fale, por duas vezes perdi a calma, em posts no meu blogue anterior e temo não responder pelos meus actos, se algum dia encontrar o "autor".
E apesar de considerar as interpretações mais radicais do Islão como perigosas para a Essência do Ocidente, também, em devido tempo, falei no mesmo tom contra as detestáveis caricaturas dinamarquesas de Maomé como bombista, as quais nem tinham graça, sequer.
Beijinhos e abraço

ariel disse...

Querido Paulo, 100% de acordo. Os grandes artistas não necessitam de recorrer a imagens primárias de ataque aos fundamentos de qualquer religião. O vulgar insulto nunca é uma obra de arte.

marilia disse...

tua mãe bem demonstra ser tua mãe, paulo querido.

e a relação entre a arte e a rã, bem... já não se sabe...

Patti disse...

Eu mal olho para uma rã, crucificada ou não, só me lembro da bela terra de Montemor, onde as suas perninhas fritas são divinais.

E isso é para mim um acto de amor, vindo de uma quase ateia, que já foi católica, apostólica e romana e que já naquela altura toda a família se deleitava com as famosas perninhas da dita, delicadamente colocadas em pequenos espetos de madeira.

ana v. disse...

Toda essa raiva não será pelo facto de o bicho ser... verde? ;-)

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Ariel,
nem grande publicidade. Mas há quem aposte tudo em que se fale de si, seja lá de que maneira for!

Obrigado, Querida Marília. Foi das coisas mais agradáveis que ouvi na minha vida.
Quanto a Arte e batráquios, suponho que todos temos engolido muitos sapos.

Querida Patti,
comer o que se ama está muito dentro da linha de moralidade recomendada, parece-me...
Em França então, neste capítulo...

Não sei, Ana, nem vi riscas desbotadas para tal justificação...
Beijinhos