
Imaginem só, como a desvergonha não tem limites, hoje vou abalançar-me a escrever sobre Economia! Ou melhor, sobre a auxiliar dela que é a língua. Há muito que desconfiava, mas
esta dúvida do Prof. César das Neves fortaleceu-me a convicção de que na degradação do termo
técnico tudo está ligado. Ainda admitia que a
Recessão Técnica fosse uma categoria amplamente constatada e teorizada pelos Académicos. Um dos mais Ilustres vem agora desenganar-nos, dizendo que ela surgiu dos títulos da Imprensa, o degrau imediatamente acima do Nada.
Ora, o que vos proponho é o percurso de perda do estatuto
técnico. Talvez tenha começado com a consagração profissional
Engenheiro Técnico, considerado um grau de habilitação não tão dilatada com o Engenheiro
tout court. Mas para o inconsciente colectivo não chegava, por estar associado a actividades profissionais estimáveis. Veio então o Futebol, começou-se a dizer de uma equipa que não conseguia grandes resultados, apesar de possuir jogadores com dotes, que
tinha muita técnica, mas... pouco ou nenhum rigor. Isto sim, já começava a entrar na cachimónia da gente. E eis que surgiu a gota de água, o
Inglês Técnico com que o Sr. Sócrates terá, por correspondência, acabado o curso. À primeira vista pareceria um segmento linguístico que não é dominado por todos. Mas tanta conversa sobre a insuficiência de certificações para a assunção de uma categoria profissional, outra coisa não fez do que inculcar a ideia de que se tratava dum pedaço do idioma mais rasca, "não tão inglês como o resto".
Que admira pois, com a criatividade dos
Gentlemen of the Press, que se denomine assim uma recessão que
não (se sabe se) é tão recessão como a "pura", resultante da avaliação de um ano? Para mais, sendo a que não precisa de ser caucionada pela análise de reputados professores de Economia.